Especialmente para Mim: um autista em minha vida







Tudo começou a partir de um sonho... Meu sonho de ser mãe. Você, meu pequeno Ulisses, como um passe de mágica, fez meu sonho de mãe acontecer...

Sempre acreditei que o amor de mãe era o maior amor que podia existir nesse mundo. Até que um dia... Nasceu Ulisses, meu primeiro filho, quatro anos depois veio a notícia de que ele é autista, passei a ter plena certeza de que o maior amor do mundo é mesmo o amor de mãe, mais que isso, descobri que o amor de uma mãe por um filho especial é... o verdadeiro amor Incondicional, inexplicável, realmente grandioso, diferente... Especial.

Minha paixão por crianças me levou a fazer diversas coisas lindas e muito gratificantes nos caminhos da minha vida...
...Fui catequista e sempre sonhei em desenvolver um trabalho social e de evangelização que pudesse atender os bebês e crianças até os doze anos. Mas isso, não era tão simples assim... Foi então que, em 1995, quando fazia estágio na UFAM, onde fiz Faculdade de Pedagogia, descobri a Pastoral da Criança, foi amor à primeira vista. Com a ajuda de um grupo de amigos voluntários implantei a Pastoral da Criança na Comunidade Nossa Senhora de Nazaré, na então Paróquia de Santo Afonso. O sonho se realizou, era só o começo de uma linda história de testemunho de vida e doação ás obras de Deus. Durante cinco anos, realizamos um lindo trabalho, o serviço de doação e amor ao próximo.... Amor sem fim.

Ajudamos muitas famílias e, principalmente crianças carentes e desnutridas, mas não parávamos por ai, desenvolvia a catequese no ventre materno e educação essencial, visando acompanhar o desenvolvimento físico, afetivo e espiritual dos pequeninos, também dava aula para jovens e adultos. Na Pastoral já fazíamos atendimento em algumas crianças especiais, inclusive orientávamos ás famílias a buscarem seus direitos, como o benefício junto á Previdência Social e aos atendimentos clínicos. Além disso, realizávamos muitas comemorações para todas as crianças e seus irmãos, assim como do dia das mães, dia dos pais e dia das crianças, criamos um coral infantil e teatro mirim, do qual elas participavam entusiasmadas. Ao final do mês, celebrávamos a vida de cada ser que Deus colocou em nossos caminhos, agradecendo pela saúde, pela família, pelas conquistas da pastoral, pelos queridos líderes e principalmente, pela VIDA EM ABUNDÂNCIA, tudo era lindo, divino...



No seio familiar então, nem se fale, minha mãe até hoje faz questão de dizer do orgulho que sente por mim, me relaciono muito bem com meus irmãos e sempre fui a tia mais coruja que poderia existir, meus sobrinhos são como filhos para mim, amo muito todos eles...
Trabalhei durante alguns anos, quando ainda estava no Ensino Médio, como professora de reforço para as crianças do bairro onde morava. Achava difícil a “arte de ensinar”, não pelas crianças (que até hoje me chamam carinhosamente de “tia Ana”), mas por não conseguir que todos aprendessem.




Por isso, pretendia seguir qualquer profissão, menos a do magistério, nem pensar! Mas contra o destino quem pode? Fiz o Curso Acadêmico e em seguida passei no vestibular para Pedagogia e logo passei num Concurso Público Municipal para Agente de Educação Rural, mas somente depois descobri que seria para dar aula. Como havia a exigência de experiência no magistério para recebermos o Diploma de Licenciado em Pedagogia, resolvi enfrentar mais esse desafio em minha vida e, diga-se de passagem, “Que Desafio”!




Muito do que aprendi, vivi, sonhei e jamais esqueci, foram conquistas de uma alma aguerrida, entusiasmada com a vida e o que ela nos dá de mais maravilhoso: Coragem e Força de vontade para realizarmos nossos desejos mais profundos...




Meus caminhos na área da educação foram promissores, tive as mais diversificadas e importantes experiências profissionais que um ser humano pode ter, fui “professorinha” em escola rural e, quando conclui o curso de pedagogia passei a ser supervisora pedagógica na zona rural de Manaus, onde também assumi o cargo de coordenadora pedagógica, sei que muitas vezes passava dias visitando e realizando planejamento pedagógico com professores, reuniões com a comunidade, entre outros, tudo em prol das “bênçãos” que Deus colocou em minha vida, em seguida fui consultora do Banco Mundial através do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento-PNUD, onde realizava assessoramento técnico-pedagógico do Projeto Escola Ativa, viajava aos lugares mais longínquos e inexplorados possíveis, conheci pessoas extraordinárias com suas histórias fascinantes e comoventes, como não se impressionar? Como não se apaixonar? A beleza da Cultura desse povo tão lindo, do meu imenso e riquíssimo Amazonas. Ah! que maravilha!




Em todas as comunidades em que chegava sempre havia alunos com seus olhares curiosos transmitindo a alegria que transbordava dos seus coraçõezinhos palpitantes. Jamais esquecerei um menino indígena do Lago Igarapé do Comprido (Urucará-Am), quando via o Barco se aproximando do lago, saia correndo “beirando” o mesmo até encostar, logo ao me saudar, pegava minhas mochilas e saia em direção a sua casa, ele era encantador, contava cada história interessante e sua família singela me recebia com o maior dos afetos, um aconchego que fazia eu me sentir em casa.




Lembrando que em todos os caminhos, além dos rios e das florestas, existem as pedras e os espinhos, pois na área rural de todo o Amazonas, inclusive na capital, era notório o abandono, o descaso e o esquecimento por parte de autoridades, isso me revoltava e me deixava com vontade de fazer algo mais. Em 2002 concorri a uma vaga de Mestrado em Educação pelo PPGE-UFAM, fui aprovada e iniciei mais um sonho: desenvolver pesquisas nas escolas rurais de um dos municípios mais lindos do Amazonas, São Sebastião do Uatumã.




Também não posso esquecer da experiência, breve e significativa em minha história de vida que foi o trabalho por um curto período com os alunos de uma sala de educação especial, em que atendia treze alunos com déficit de atenção, maus tratos e quem sabe algum autista também? Uma vez que não nos davam o diagnóstico dos alunos, até hoje só sei de um loirinho de olhos verdes que tinha síndrome de down, porque dava para reconhecer logo, cuidava deles com muito carinho e tentava compreendê-los.



Aprendi algumas coisas em cursos de formação pedagógica, mas o maior complicador era mesmo quando estava (sozinha) com todos eles. No intervalo do lanche, por exemplo, ficava muito preocupada que pudesse acontecer algo grave com algum deles, sempre que ia chamá-los de volta para a sala, ao me ajoelhar (pois acredito que para falar melhor com essas crianças devemos nos posicionar na mesma altura e olhar bem em seus olhos) o meu loirinho me olhava e cuspia bolachas no meu rosto, não sabia se ria ou se chorava, mas era tão fofo! Até em casa lembrava de todos e ficava rindo sozinha.




Mesmo com algumas dúvidas e dificuldades para lidar com essas crianças, tentava de todas as maneiras ser a melhor professora que eu pudesse e fazê-los felizes, pelo menos enquanto estivessem na escola. Isso é a verdadeira felicidade!




Em 2005 tive a oportunidade de assumir um cargo comissionado e fiquei entre a vontade em poder ajudar a transformar a realidade cruel das escolas rurais da nossa cidade e cuidar do meu maior tesouro que acabara de nascer, meu lindo bebê estava apenas com um mês e 16 dias quando resolvi seguir o destino que Deus me reservou mais uma vez. Como ele ainda mamava, o levava comigo, com seis meses já estava tomando banho com crianças indígenas numa comunidade rural do Rio Negro, sempre fascinado por água. Para onde eu ia, ele ia comigo, inclusive quando ia dar formação e palestras no interior do estado, seu contato com os funcionários, alunos e comunitários era dos melhores e o mais saudável possível, o que me faz concluir que, mesmo sem saber o que o futuro nos aguardava, já era estimulado a desenvolver a integração e o contato social, pois convivia com muitas pessoas.




Até que um dia, por motivos que só nosso supremo Pai conhece, fui exonerada desse cargo, em que deixei minhas pegadas e trouxe lembranças nas malas. Mas, como todas as coisas que me acontecem, foi na hora certa, pois era preciso voltar meu olhar de mãe para meu pequenino que já estava dando sinais de que algo não ia bem, estava deixando de falar, de dar tchau e de jogar beijos, entrei de férias e comecei a levá-lo para fazer vários exames, até chegar ao diagnóstico de Autismo Clássico.




Foi então que muita coisa mudou em minha vida, mas nem tudo, pois minha perseverança, minha força de vontade e principalmente minha coragem, me levaram ao meu próximo desafio: A Casa da Esperança, juntamente com meu esposo, meu pequeno autista e a mais nova razão da minha vida, a pequena Sofia que tinha apenas três meses de vida, tão linda e serelepe quanto o irmão.



É humanamente impossível descrever a Casa da Esperança, esse lugar de seres humanos pra lá de excepcionais, nem falo só dos autistas, mas principalmente dos profissionais, os agentes e terapeutas, que dedicam suas vidas em prol do tratamento dos portadores do transtorno do espectro autista com o maior amor, cuidado e respeito que se pode e se deve ter com essas pessoas, a começar pela criatura que teve a coragem de idealizar e fundar com outros pais batalhadores essa fundação reconhecida mundialmente. Desse modo, não dava pra Ana Maria ficar fora dessa experiência não é? Então, desenvolvemos trabalhos pedagógicos com crianças autistas no Atendimento Educacional Especializado, foi muito gratificante e surpreendente, outra experiência pra ficar na história. Todos merecem nossos agradecimentos. Parabéns!




Logo nos primeiros meses na CAESP, o Ulisses deixou as fraldas e passou a nos ouvir e nos obedecer mais, além de comer uma variedade maior de alimentos e desenvolver atividades da vida diária, também se comportar melhor nos restaurantes e outros lugares onde o levávamos. A cada conquista, a realização de mais um sonho!




Por tudo isso, é que nunca me desesperei e jamais questionei as coisas maravilhosas que meu Divino Pai reservou para mim, pois sinto e sempre senti que seria mãe de um ser especial e que Deus preparou os caminhos da minha vida para que eu pudesse acolher e amar incondicionalmente meu pequeno Ulisses. Ele veio para ser meu filho lindo, muito querido pelos amigos e parentes e amado demais. Continua lindo, não deixou de ser querido, nem deixou de ser amado e principalmente, continua sendo Meu Filho...




Só tenho a agradecer, porque existem muitas pessoas que passaram a fazer parte da nossa história, amo todos os que deixaram suas pegadas de amor e dedicação nos caminhos por onde andei. Finalizo este capítulo, agradecendo á vida deste ser sublime que Deus enviou...
Especialmente para mim

Ana Maria.

8 comentários:

  1. parabéns seu blog e muito bom!!!

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  2. Parabéns!!!!! Você é uma guerreira, sua história de vida é uma lição, seus filhos são lindos e com certeza são presentes de Deus.

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  3. Quando se ler uma estória como a sua pensamos que existe casos desses só em filmes e novelas de tevê mas a gente encontra isso na nossa vida real. Sua estória é muito lendária e interessante e emocionante.

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  4. Emocionante o seu relato de vida. Parabens pela perseverança.

    José Reis Neto e Juraci C.Souza Reis

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  5. Parabéns Ana pelo seu relato e sua história de luta em favor dos desamparados. Quero dizer avc que também trabalhei nesse paraná do comprido como professor, hoje estou concluindo meu curso de medicina na capital. Parabéns!

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    1. OI PROFESSOR ALMIR, PRECISAMOS NOS FALAR MAIS SOBRE AS PERSONAGENS MARCANTES DO IGARAPÉ DO COMPRIDO, TENHO IMENSA VONTADE DE VOLTAR LÁ E REENCONTRAR AQUELE POVO TÃO ACOLHEDOR, ABRAÇOS. ANA

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    2. OI PROFESSOR ALMIR, PRECISAMOS NOS FALAR MAIS SOBRE AS PERSONAGENS MARCANTES DO IGARAPÉ DO COMPRIDO, TENHO IMENSA VONTADE DE VOLTAR LÁ E REENCONTRAR AQUELE POVO TÃO ACOLHEDOR, ABRAÇOS. ANA

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  6. Parabéns por transformar sua história em uma linda história de vitória. Que Deus sempre abençõe seu Ulisses assim como ao meu Vitor ( 4 anos e meio, diagnosticado portador de sindrome de Asperger).Conheça a minha história de vitória (flaviavirginia.blogspot.com)

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